terça-feira, 21 de março de 2017

Programação completa do centenário

     Em comemoração aos 100 anos da Revolução Russa, o Jornal Faísca está organizando uma série de discussões de textos (atuais e da época) e de debates que ocorrerão uma vez por mês. O objetivo é se debruçar sobre esse importantíssimo acontecimento histórico e dele tirar lições da experiência do movimento operário Russo de 1917.
     O debate é aberto para todos!



terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Por que precisamos de uma revolução?


Por Eric Garcia
os posicionamentos deste texto são de responsabilidade do autor


Na sociedade atual, é muito comum reduzirmos todas as coisas a produtos comercializáveis, ou seja, a mercadorias. Tudo que nos cerca tem um preço. Dos bens palpáveis (comida, carro, eletrônicos etc.) aos serviços (educação, saúde, segurança etc.). Até mesmo coisas como a vida privada alheia e os valores éticos podem ser comprados por aqueles que possuem mais recursos para pagar. Não é isso que acontece com os programas de TV estilo Big Brother, com revistas de Paparazzi e com os pequenos e grandes casos de corrupção que vemos todos os dias? Não deveria ser, mas é assim.
As implicações dessa nefasta característica de nossa sociedade podem ser terríveis. Cerca de 1,3 bilhão de toneladas de comida são desperdiçadas por ano[1], enquanto muitos seres humanos passam fome por não ter o que comer. Grandes crises do capitalismo aconteceram porque se produziu tantas mercadorias que elas ficaram acumuladas, estocadas, simplesmente pela impossibilidade de vendê-las, afinal, não existiam pessoas capazes de comprá-las. Para mudar isto, não há nada mais a fazer além de uma revolução das bases da sociedade capitalista.
Mas uma revolução não é simplesmente alterar, aqui e ali, aspectos pontuais da sociedade. Mudar uma política ou outra e manter a mesma estrutura social é apenas reformar o capitalismo, sem sequer alterar o fator que faz com que tudo que conhecemos possa se converter em mercadorias. Precisamos ir mais além. Quando uma estrutura de uma casa está comprometida, não adianta trocar uma parede de lugar, reformar o telhado ou o seu sistema elétrico. É necessário que se destrua as estruturas básicas da casa para construir outra estrutura no lugar. E é dessa transformação que precisamos na atual sociedade, ou caminharemos para uma barbárie, um futuro onde a saída não será outra senão “matar ou morrer”.
Até aqui, podemos concluir que uma revolução é necessária, afinal, as coisas não estão dando tão certo como verbalizam os defensores do capitalismo. Mas devemos prosseguir. Em primeiro lugar, devemos nos fazer uma primeira pergunta: essa revolução é possível? Uma mudança tão radical parece ser algo muito distante das nossas capacidades. Desde os tempos de nossos pais e avós as coisas funcionam assim, e parece que nunca vão mudar. Contudo, duas coisas devem ser postas na mesa: 1) Nem sempre foi assim! A história da sociedade é repleta de mudanças. As vezes elas podem demorar séculos para acontecer, por isso não nos lembramos qual foi a última. Seria um erro muito grande achar que não é mais possível transformar a sociedade; 2) Temos condições reais para fazer! Se levarmos em consideração que precisamos buscar uma nova sociedade na qual todas as pessoas tenham suas necessidades básicas atendidas, que tenham o que comer, onde morar, como se locomoverem, uma boa saúde e educação, a resposta não poderia ser outra: Sim, é possível! Por que não seria, se já somos capazes de produzir riquezas para atender as necessidades básicas de todos?
Para ilustrar essa nossa condição de fazer uma revolução nesse sentido, vamos lembrar que esse debate não é de hoje. No início do século 19, um economista britânico chamado Thomas Malthus criou uma teoria afirmando que com o crescimento acelerado da população, no futuro, não teríamos mais como sustentar a todos. Essa teoria, contudo, não conseguiu se sustentar. Alguns anos depois, Karl Marx, um economista alemão, usando os dados da produção econômica da Inglaterra, demonstrou que os meios de produção se tornavam cada vez mais avançados, e que produzíamos cada vez mais mercadorias. Hoje isso está cada vez mais claro, como visto no relatório da ONU citado acima sobre o desperdício de alimentos, e como podemos ver em outra reportagem da mesma organização que diz: “Paraguai produz alimentos para quase 60 milhões de pessoas, mas 10% da população passa fome[2], sendo que na época em que essa reportagem foi escrita, o Paraguai possuía apenas 7 milhões de habitantes.
Com tantas mercadorias que não chegam a serem consumidas simplesmente porque alguém não pode pagar por elas, fica claro que o problema está como organizamos nossa produção e distribuição de riquezas.
A partir daqui, é necessário inserir um debate considerando a existência das classes sociais. Aqueles que produzem toda essa riqueza, que transformam a matéria encontrada na natureza em bens que usamos no dia a dia, ou seja, a classe operária, pouco se apropria desta riqueza produzida. Por exemplo: de toda a riqueza que uma fábrica de carros produz, pouca coisa se converte em salários para os trabalhadores que lá atuam. Os sujeitos que verdadeiramente enriquecem com a fábrica são os donos dela. Enquanto isso, são os trabalhadores, principalmente aqueles que estão em empregos degradantes ou que se encontram desempregados[3], que encontram maiores dificuldades para sobreviver, para comer bem, para pagar seu aluguel ou seu meio de transporte, utilizando de serviços quase sempre precários. Já as classes dominantes e seus representantes não trabalham, não produzem, e vivem aos luxos e à custa do trabalho dos outros.
Apesar de produzirem toda essa riqueza material existente, os operários não decidem absolutamente nada sobre essa produção. Desde a escolha do que produzir, até mesmo ao processo de como e para quem produzi-la. Ao contrário, produzem sob o comando de outra classe social, a burguesia, classe que possui os meios de produção (fábricas, máquinas, terras, ferramentas etc.). O grande problema disso é que a história não é contada por completo. A burguesia só possui esses meios de produção graças a um longo processo histórico de expropriação de riqueza, ou seja, a retirada da posse dos trabalhadores. Afinal, se voltarmos até a origem de tudo, quem produziu os meios de produção? Quem produziu as máquinas? Quem arou a terra? Quem retirou a matéria prima ainda bruta da natureza? Quem, senão os próprios trabalhadores? Esse processo é real, e descrito por alguns estudiosos como acumulação primitiva[4].
Passemos para a próxima questão.
Após responder a primeira pergunta sobre a viabilidade da revolução, devemos nos fazer uma segunda pergunta: quem serão aqueles que levarão adiante um projeto revolucionário? E essa pergunta, de algum modo, já foi respondida aqui. Vejamos o porquê: se o que temos que revolucionar é “como organizamos nossa produção e distribuição de riquezas”, precisamos fazer isso de uma forma diferente. A classe operária é quem produz quase toda a riqueza da humanidade, porém, juntamente com outros trabalhadores, sofrem com a escassez dessa mesma riqueza. É o operário que, no chão das fábricas, transformam a matéria que encontramos em estado natural em mercadorias as mais sofisticadas possíveis.

É preciso deixar claro que, apesar de existir outras classes que produzem riquezas, como os artesãos e camponeses, esses não podem acompanhar o ritmo de produção das fábricas tecnologicamente mais avançadas. Essas outras classes também transformam a natureza em produtos, riqueza material. Contudo, o salto da produtividade que a técnica proporciona para as indústrias (sejam elas urbanas ou agrárias) é estratosférico! Uma indústria de sapatos produz milhares de vezes mais mercadorias do que um grupo de artesãos, bem como uma agroindústria de tomates produz toneladas a mais do que famílias camponesas. Não é uma questão de discutir se o camponês, o artesão ou o operário possuem relações mais humanas, coletivas, éticas ou qualquer outra coisa do gênero. É uma questão de possibilidades reais de garantir uma produção em grande quantidade, que sustente a todos, e nisso, a classe operária se destaca das demais.
Logo, numa revolução, a classe operária deve se fazer presente enquanto sujeito revolucionário fundamental, devendo estar organizada e consciente do seu papel revolucionário. Tomar e revolucionar os meios de produção utilizados pelos operários pode fazer com que a sociedade produza para todos de forma satisfatória. Para isso, o poder de decisão deve estar nas mãos dos operários, já que são aqueles que produzem quase toda a riqueza material. Nesse sentido, o projeto revolucionário socialista deve ser um projeto operário. Ficaria inviável utilizar dos meios de produção dos artesãos, camponeses ou de qualquer outra classe, e atender a todos satisfatoriamente.
Porém, isso não significa de maneira nenhuma que os operários farão qualquer revolução sozinhos. O projeto pode ter que partir desta classe, mas de forma isolada não farão mudança alguma. Outros seguimentos da classe trabalhadora, tanto os artesãos e camponeses já mencionados, quanto aqueles que não transformam a natureza em riqueza material (professores, taxistas, cientistas, faxineiros etc.) devem se juntar a esse processo revolucionário. Contudo, devem aderir ao projeto revolucionário da classe operária, devem leva-lo adiante, fazendo com que ele possa ter a possibilidade de se tornar algo real.

Essa adesão ao projeto de outra classe não se configuraria uma exploração de uma classe sob as outras, como ocorre na relação entre a burguesia e o operariado nos dias de hoje. O projeto revolucionário do operário tem como objetivo beneficiar todos aqueles que buscam construir uma sociedade coletivamente. O horizonte a ser alcançado é uma sociedade onde todos tenham suas condições de existência garantidas e, consequentemente, suas potencialidades humanas desenvolvidas. Não defendo que seja algo predeterminado, ou se quer que seja uma tarefa fácil. Mas é algo possível! Por isso, precisamos lutar cotidianamente contra a exploração e os ataques da burguesia, a favor de uma sociedade coletivamente construída.




[1] Como foi constatado no relatório da ONU em 2012: “A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) estima que as perdas globais dos alimentos e o desperdício cheguem a 1,3 bilhão de toneladas por ano - cerca de um terço da produção mundial de alimentos”. Confira o relatório na íntegra em http://www.onu.org.br/rio20/alimentacao.pdf.
[3] Sobre a questão do desemprego, um texto do Jornal Faísca, publicado em Janeiro de 2015 explora este tema, buscando explicar a necessidade do desemprego no capitalismo. Leia no link: http://jornalfaisca.blogspot.com.br/2015/01/desemprego-as-pessoas-por-detras-dos_20.html.
[4] O tema da acumulação primitiva é muito extenso, e envolve um grande período histórico, que vai desde a crise do sistema feudal e das grandes navegações no século 15, até as manufaturas no século 18. Não teríamos condições de expor tudo isso aqui neste texto, mas indico a leitura do capítulo 24 do livro “O Capital”, de Karl Marx, chamado “A Assim Chamada Acumulação Primitiva”, ou de forma mais resumida,  no capítulo 9 do livro “Introdução a filosofia de Marx”, de Sérgio Lessa e Ivo Tonet, chamado “O feudalismo e a origem da sociedade capitalista”.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

QUEBRANDO O GESSO



O movimento Ocupa UESB e o combate a democracia representativa


por José Barata
os posicionamentos deste texto são de responsabilidade do autor


Os movimentos nacionais de ocupações em escolas, universidades e institutos federais[1] chegaram à Vitória da Conquista com toda sua dinamicidade. Na UESB ele cresceu rapidamente, vindo de baixo, e caminhou para o choque inevitável contra as instituições burocráticas do Estado que estão imediatamente próximas ao movimento da base. Não me refiro à polícia ou ao poder judiciário, mas às próprias instâncias de representação oficiais, o sindicato dos estudantes universitários: o Diretório Central dos Estudantes (DCE).
Menos de uma semana após o início da ocupação, o DCE já havia sido deixado para trás. A reviravolta ocorreu após uma manobra de cúpula do Levante Popular da Juventude - uma organização de petistas enrustidos - onde tentou instituir representantes jurídicos do movimento sem o aval prévio de uma assembleia. Tais dirigentes foram denunciados, confrontados e deslegitimados. Deram vexame, para o delírio das oposições que disputam o diretório. A mesa virou e o controle do movimento passou das mãos do DCE para a Assembleia.
Nos momentos seguintes, a tentativa de reconciliação foi impossível. Os caciques do Levante passaram a se queixar do filho que largou a barra de sua saia. Diziam querer apenas ajudar, de boa vontade, como um bom político faz. Depois se demonstraram comovidamente preocupados com os rachas do movimento, como se não fosse saudável rachar com um cão de guarda do PT. Em seguida, passou a culpar os "esquerdistas”, com seus delírios "anarcocapitalistas" de questionar as instituições divinas do Estado.
Por fim, chegaram ao ponto de descumprir uma deliberação da Assembleia. Colaboraram com aqueles que estão abertamente difamando a ocupação. Sem coragem de assumir a responsabilidade de uma decisão política que fizeram, alegam apenas estarem cumprindo o seu dever de seguir um estatuto. Um protocolo banal. Ao buscar fundamento para o que fizeram, não se baseiam na necessidade real do movimento, mas na adoração jurídica de instituições abstratas. Citam o estudo do DCE para provar que estão certos, tal como os senhores de escravo citavam a lei para legitimar a escravidão:
Art. 13. Compõe o DCE por ordem decrescente de poder deliberativo as instâncias:
a) O Congresso de Estudantes da UESB;
b) O Conselho de Entidades de Base multicampi;
c) O Conselho das gestões do DCE de cada campus;
d) A Assembleia Geral de Estudantes do campus;
e) O Conselho de Entidades de Base (CEB) do campus;
f) A reunião da Diretoria do DCE de cada campus.
Tal como aparece no estatuto, defendem que a instância superior do movimento é o Congresso de estudantes da UESB. Sequer se questionam como um congresso desses funciona e os obstáculos burocráticos para ser posto em prática. Em uma conjuntura onde o Estado consegue controlar as tensões sociais, é evidente que um congresso se realiza sempre em um clima de calmaria, quando os movimentos de massa estão adormecidos. Neste caso, a eleição de delegados pode ser facilmente controlada por organizações de políticos profissionais, pois as massas estão majoritariamente esmagadas pelo cotidiano frenético da sociedade capitalista. Sem muitos problemas, partidos políticos formam seus currais eleitorais, sempre em clima de carnaval, recrutando votos na base da amizade e do clientelismo.
Alguns anos atrás, esta situação ridícula foi denunciada em vídeo que viralizou no YouTube (Que porra é essa?).  É muito comum nestes congressos que a maior parte da delegação não participe dos espaços de debate. Muitos comparecem apenas pelo turismo. Muitas vezes, um congresso esvaziado pode surpreender lotando uma plenária final, repleta de pessoas que foram ali apenas para votar no seu "time de futebol". Muitas vezes votam em bloco, com posições já acertadas em reuniões de cúpulas. Neste clima, todo discernimento é posto de lado. Os grupos com maiores recursos financeiros e aparatos burocráticos conseguem levar mais delegados. Freqüentemente ganham quase todas as votações. Tal como nas eleições gerais, as campanhas mais caras geralmente ganham os pleitos.
O estatuto do DCE da UESB também foi aprovado em condições semelhantes. Os membros do DCE recorrem ao estatuto pois ele foi elaborado sob a liderança de burocratas como eles. Representam muito mais os interesses desta casta do que os interesses reais do conjunto dos estudantes. Preferem se apegar na letra morta do que no movimento vivo. Buscam engessá-lo em suas normas. Adestrá-lo através de artigos rígidos, enquanto o movimento clama por uma dinâmica própria e flexível, possível de ser ajustada a cada momento. Justamente quando o movimento dá um salto de qualidade e ganha força, os dirigentes o condenam.
Ridicularizam os indivíduos mais antigos por fazerem questão de relembrar a história do movimento estudantil, prevenindo os mais novos dos "chefes" que buscam tomar o movimento para si. Dizem se tratar de antigas picuinhas, para descaracterizar qualquer divergência política séria. Raramente enfrentam um debate político, pois isso insistem em levar para lado pessoal. Porém, se colocam enquanto uma esquerda avançada e sensata. Dizem lutar pela unidade do movimento a qualquer custo, enquanto fazem campanha eleitoral para os governantes do Estado burguês. Enquanto o movimento lançava uma nota de repúdio contra José Raimundo (PT), os membros do Levante estampavam o 13 em seus perfis do Facebook. Apareciam em fotos com o candidato repudiado.
Logo, questionar as instituições dominantes do Estado, tal como o DCE e os sindicatos, é a primeira coisa que qualquer movimento de massas precisa fazer. Não é sinal de fragilidade, mas de seu avanço. É um verdadeiro salto de qualidade. O primeiro obstáculo para afrontar a ordem dominante. Para combater as estruturas engessadas do DCE, precisam fortalecer as Assembleias, um órgão de participação direta e autônomo, sem intermediários. Isso o colocará em confronto direto contra um inimigo muito mais poderoso: o capital e seu Estado. Para vencê-los, é necessário encarar a seguinte situação: a gênese de toda dominação em nossa sociedade é a luta de classes, caso deseje combatê-la, precisa tomar parte no conflito essencial entre o capital e o trabalho.





[1] Para comentários mais gerais sobre o movimento nacional de ocupações, vale a pena ler a nota publicada pelo Faísca em 27 de Outubro deste ano, “Ocupações dos estudantes”. Acesse o blog: <http://jornalfaisca.blogspot.com.br/2016/10/ocupacoes-dos-estudantes.html>.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

OCUPAÇÕES DOS ESTUDANTES:

A LUTA DOS ESTUDANTES É A LUTA DE TODOS OS TRABALHADORES

(Baixe esta nota em PDF clicando aqui)

     A experiência das ocupações das escolas no primeiro semestre desse ano no Estado de São Paulo, que alcançou êxito parcial em barrar as tentativas de precarização do ensino médio, reaparece agora em escala nacional! Após o início das ocupações no estado do Paraná, o movimento ganhou força e já são mais de 1000 unidades educacionais ocupadas (escolas e universidades) espalhadas pelo país. Esse movimento deve ser apoiado e incentivado, já que suas bandeiras de luta vão muito além das especificidades da luta estudantil. Trata-se de uma luta por melhores condições de vida para o conjunto dos explorados e suas famílias, pois sua pauta principal é contra a proposta governamental da PEC 241, que atinge diretamente todo o proletariado com o corte e congelamento das verbas destinadas especialmente às camadas que compõem a maioria absoluta dos trabalhadores assalariados, dentre elas os estudantes. É preciso ter em mente que as medidas adotadas pelo atual governo seguem a mesma linha das iniciadas no governo Dilma - que na tentativa de administrar a crise do capitalismo já cortava as verbas públicas. Essa dinâmica agora está sendo aprofundada pelo governo atual nos seus diversos níveis, federal, estadual e municipal.
     A explosão de descontentamento e a revolta dos estudantes e assalariados no Brasil e no mundo (a exemplo da França, Espanha, Grécia, EUA, Inglaterra, Turquia, Norte da África [Tunísia, Egito etc.]) não é um fenômeno isolado ou particular, mas que tem suas raízes na crise mundial do capitalismo. O ataque aos direitos trabalhistas e às condições de vida dos mesmos são produzidos pela incapacidade do capital em gerir seu sistema, de modo que a tentativa de precarizar o sistema educativo é uma prática que ataca as condições de vida das jovens gerações proletárias a nível mundial, basta ver os exemplos como: a França na primavera de 2006 (contra o Contrato do Primeiro Emprego - CPE) e no ano de 2007 contra a nova legislação universitária (LRU); as lutas contra cortes na educação na Inglaterra em 2010; no Canadá em 2012; e no Chile nos últimos 10 anos. Deste modo, vê-se que a contestação estudantil se insere num movimento internacional que se opõe à precarização da educação. Diante destas reações, o conjunto da burguesia destes países tem percebido o risco de contágio das explosões sociais.
     A reforma do sistema educativo que tem se empreendido em escala internacional é o modo que a burguesia, em plena crise do capital, possui para administrar a prevalência dos seus interesses sobre a sociedade, colocando nos horizontes dos filhos e filhas da classe trabalhadora um futuro dirigido à generalização do desemprego e da precariedade de vida. Assim, o rechaço e a revolta das novas gerações de proletários estudantes geram igualmente, em todas as partes, a simpatia dos demais trabalhadores de todas as gerações. Lutam contra a decomposição do tecido social, contra o individualismo imposto pelo sistema capitalista, contra o isolamento social, contra a concorrência de todos contra todos!
     Dentro do horizonte estabelecido no debate sobre a reforma fica patente a sua atribuição ao governo Temer, colocando a luta dos estudantes dentro da disputa burguesa pelo poder do Estado, ou seja, como uma luta pelo “Fora Temer”. No entanto, a proposta de reforma já vinha sendo trabalhada também pelo PT, basta ver o Projeto de Lei 6.840/2013 que tramitava no Congresso desde 2013. A própria Dilma tinha como política de governo a necessidade de se estabelecer uma reforma do gênero.
     A experiência internacional evidencia que não importa quem esteja administrando o Estado capitalista, seja de esquerda ou de direita, diante da crise e das imposições do capital suas “soluções” são sempre as medidas de austeridade e cortes nos serviços sociais. Não há ilusões em relação à direita em quanto a isso, mas é preciso mostrar que a esquerda não é muito diferente em suas soluções nesses contextos. Como alguns exemplos temos: 1) no Chile, a reforma educacional de Bachelet (Partido Socialista); 2) na Grécia o partido Syriza, depois de chegar ao poder por meio de um discurso de que faria uma “mudança radical” para superar a crise, fez exatamente o contrário e impôs mais austeridade à vida dos trabalhadores; 3) na França é a esquerda de François Hollande (Partido Socialista) que está realizando a reforma trabalhista que piora ainda mais as condições de trabalho. Claro que esses partidos são socialistas apenas nos nomes, já que suas práticas atendem aos interesses da burguesia.
     Outra ilusão propagada por setores dos movimentos ligados a “esquerda do capital” é a reclamação de uma aplicação “antidemocrática” e “sem diálogo” da Reforma Educacional. Todavia, isso apenas reforça um apelo às vias democrático-estatais e esconde o problema de que, na prática, qualquer reforma do gênero significa a precarização das condições de vida dos trabalhadores. O objetivo destas reformas é manter ou aumentar a produtividade das empresas mesmo em tempos de crise, por meio de trabalhadores adestrados aos interesses do capital desde as escolas.
     Vale ressaltar que a reforma tem como objetivo criar uma força de trabalho que possa atender os interesses da burguesia, utilizando-se do processo de formação educacional para desenvolver as habilidades que necessitam as empresas. Com a Reforma Educacional as técnicas organizacionais e disciplinares farão parte dos processos educativos, seja para os estudantes como para os professores e demais trabalhadores envolvidos neste processo. Além disso, sem dúvidas haverá uma expansão do mercado educacional atendendo as demandas econômicas do mercado. Isso significa a construção de uma política de trabalho que engaje integralmente o trabalhador não só na sua jornada de trabalho, mas que ocupe todas as outras dimensões de sua vida começando já na sua preparação escolar.
     Fica claro que se esses ataques do Estado forem concretizados por conta da passividade ou mesmo pela resistência limitada aos estudantes, certamente abrirão espaço para promoção permanente de reformas, seja no âmbito da previdência com a elevação da idade para o acesso a aposentadoria, ou na esfera dos direitos trabalhistas, com a flexibilização ainda maior dos direitos dos trabalhadores.

O RECHAÇO ÀS ARMADILHAS BURGUESAS
     A presente mobilização dos estudantes deve rechaçar por completo seu enquadramento como luta de resistência contra o governo atual e o seu parlamento afundado na corrupção. Caso o movimento siga o “Fora Temer”, vai cair no terreno de disputa burguesa para escolha do gestor do Estado, cuja tarefa do momento não é outra senão efetivar medidas de austeridade para enfrentar a crise econômica. Cair nessa armadilha é escolher o governo “legítimo” para atacar as condições de vida dos trabalhadores.
     Situar o problema da crise do capital na gestão do Estado por Partido A ou B é um erro. Tais manobras tem como objetivo impedir uma possível radicalização dos movimentos e a sua extensão ao conjunto do proletariado. É necessário colocar em questão a própria legitimidade das instâncias burguesas e, ao mesmo tempo, levantar a perspectiva de uma transformação do modo de produção capitalista, pela supressão de todas as formas de exploração.
     Todo mecanismo que pretenda dividir o movimento, ou mesmo que o encaminhem para seu isolamento, deve ser reconhecido pelo movimento como um obstáculo ao seu desenvolvimento. Os manifestantes precisam perceber que a sua força está, sobretudo, na unidade e na capacidade de que o movimento se espalhe para outros setores do proletariado. Para o Estado e a burguesia, as ocupações pouco ou quase nada incomodam se cada escola permanecer fechada a suas reivindicações. A potência deste movimento está justamente na formulação de pautas que unificam os interesses dos estudantes e trabalhadores de todas as partes do país. É preciso somar forças conscientemente contra um inimigo em comum. Para isso, podem realizar assembleias conjuntas que discutam coletivamente as diretrizes de um movimento mais amplo.

ASSEMBLEIAS
     O primeiro passo para aprender e atuar conjuntamente é construir seus próprios mecanismos, rechaçando quaisquer fórmulas prontas e presas ao burocratismo. É preciso unir os manifestantes e impulsionar a luta por meio de mecanismos autônomos e independentes, no qual seja possível debater e refletir coletivamente a tomada de decisões. Em outras palavras, é preciso fugir do modelo de assembleias sindicais, nas quais os debates existem apenas para expressar posições já acabadas, em que as propostas já vêm prontas, suprimindo-se o debate e a reflexão conjunta. Por isso, as assembleias gerais são fundamentais no processo de ocupação. São elas que podem definir as orientações da luta, permitem o desenvolvimento do debate e da solidariedade entre os manifestantes.
     Nas assembleias gerais a mesa deve ser nomeada pelos próprios participantes, a pauta deve ser eleita por estes. Não devem jamais delegar sua estrutura e funcionamento para uma cúpula. As decisões sobre o rumo do movimento devem ser tomadas apenas nas assembleias. É aqui que reside a principal diferença das assembleias dos sindicatos, pois estas apenas ratificam as decisões tomadas a portas fechadas. Por outro lado, nas assembleias realmente vivas, os trabalhadores e estudantes discutem e constroem suas decisões coletivamente com todos aqueles que participam do movimento. Controlam suas comissões e revogando-as quando não cumprem com o estipulado pela assembleia. As assembleias devem ser o pulmão do movimento e não o apêndice de cúpulas. Se o movimento permitir que as ocupações sejam dirigidas por intermediários, além de correr o risco do adestramento, nunca aprenderá a conduzir suas próprias lutas, logo não dará nenhum salto de qualidade.

A NECESSIDADE DE EXTENSÃO DA LUTA
     As ocupações constituem, sem dúvida alguma, um movimento legítimo de contestação das condições de vida submetidas pelo capitalismo. Elas tendem a se agravar nos períodos de crise. Todavia, para que tenha êxito na resistência, necessitam ultrapassar as fronteiras de categorias e transformar-se em um movimento unitário de todo o proletariado. Ocupar as ruas, cidades e praças, estendendo a solidariedade aos trabalhadores dos mais variados setores da economia para, a partir daí, conquistar a adesão do conjunto dos explorados. Para isso é necessário compreender a luta além de uma reivindicação estudantil. Deve estar evidente que os cortes na educação, na saúde e nos demais serviços sociais atingem diretamente a todos à medida que aumentam ainda mais as dificuldades existentes para o acesso à educação, saúde e assistência social e todas as necessidades na luta pela sobrevivência.
     Na medida em que sejamos capazes de integrar os outros trabalhadores em um mesmo combate, o proletariado tomará consciência de sua força, ganhando confiança no seu embate de classe. Ou seja, é a confiança e a unidade que poderá fazer com que as ocupações das escolas se disseminem pelos locais de trabalho, que mobilizem os trabalhadores e que faça o Estado retroceder na sua tentativa de impor piores condições de vida aos estudantes e trabalhadores. 
     É preciso tirar plenamente as lições das experiências históricas do movimento proletário. Devemos nos armar contra os artifícios burgueses que constantemente sabotam a extensão da solidariedade ao proletariado. Nós, trabalhadores e militantes da classe operária internacional, chamamos a todos os trabalhadores a se mobilizar imediatamente para defender o futuro de nossos filhos ameaçados pela miséria e, a lutar contra a barbárie e as mentiras do governo e de todos os seus cúmplices! A solidariedade e a coragem que os estudantes em luta estão mostrando são exemplares e precisam ser reforçadas pelos trabalhadores!

QUE TODO O DESCONTENTAMENTO SE UNIFIQUE E QUE A LUTA SE ESTENDA! MAS SOB O NOSSO CONTROLE E NOSSOS PRÓPRIOS MEIOS!

Jornal Faísca (outubro de 2016)
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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Sobre a natureza da crise política brasileira*

Muito tem sido dito sobre a atual crise política brasileira. Na grande mídia, vemos uma verdadeira guerra entre as imprensas simpáticas às principais coalizões políticas do país, como, por exemplo, a Veja e Isto é de um lado, e a Caros Amigos e Carta Capital do outro.
Ás vésperas do afastamento de Dilma Rousseff, as emissoras de televisão chegaram a suspender a programação oficial para dar atenção as picuinhas políticas em Brasília. Nas redes sociais, centenas de postagens alimentavam um clima de disputas partidárias. As causas reais dessa crise não são facilmente descobertas, mas, de antemão, já podemos afirmar que todas elas têm relação direta com a crise mundial do capitalismo.
Na grande maioria dos casos estes conflitos foram tratados como um problema tipicamente brasileiro. Como se os conflitos e as crises no resto do mundo não pudessem ter alguma relação com a decadência do Partido dos trabalhadores (PT), que nos últimos anos vinha dominando a cena política. Além disso, a disputa ideológica tomou uma aparência enganadora. Pouca atenção foi dada ao fato de que os inimigos de agora até pouco tempo atrás eram “bons camaradas”. Boa parte dos opositores do PT atualmente foram, nas últimas eleições, do “time de Dilma e de Lula”.
Para além das falas apaixonadas ou desesperadas que alimentam uma falsa polarização, é necessário fazer uma reflexão séria e ponderada. O que justifica essa virada de mesa da política parlamentar? Quais interesses econômicos estão por trás das atuais disputas? Qual a relação entre a crise política no Brasil com a crise do capitalismo mundial? Um novo “salvador” (Sérgio Moro, Ciro Gomes etc.) poderá redimir a sociedade brasileira de seus males? Existe algo que a classe trabalhadora pode fazer?
Sabemos que as respostas para tantas perguntas não são fáceis, mas tentaremos dar um ponta pé inicial neste sentido.